Emprego em alta, à prova de bolhas

Tecnologia da Informação pode ter déficit de até 200 mil profissionais em 2013; veja os prós e contras de entrar cedo nesse mercado ou apostar no bacharelado

Carlos Lordelo e Paulo Saldaña – O Estado de S.Paulo

A maioria dos estudantes não faz ideia do que são códigos binários, mas eles estão na moda: a linguagem dos programadores de computador está por trás da navegação na web, dos e-mails, de ligações de celular e de outras tecnologias do cotidiano. Mesmo assim, o interesse pelo universo da Tecnologia da Informação (TI) é pequeno diante do que o mercado exige. Nesse cenário, a questão não é saber se haverá emprego, e sim qual emprego se pretende ter.

Hoje o Brasil precisa de 71 mil profissionais de TI, segundo a Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro. O número pode chegar a 200 mil em 2013. “Daqui a sete anos, continuará havendo déficit”, diz Francisco Borges, diretor acadêmico da Veris Faculdades. “Engenharia Civil é uma bolha. Informática é para sempre: todas as empresas usam a TI como meio.”

Os candidatos a uma vaga no setor têm duas opções básicas: fazer um curso de perfil técnico e antecipar a chegada ao mercado ou optar por bacharelados de pelo menos quatro anos de duração. Neste segundo caso, a aposta é ter uma formação mais consistente e se candidatar a melhores salários. O risco é ser considerado “teórico” demais numa área em que tudo muda muito rápido.

Jefferson Santos de Araújo, de 23 anos, escolheu a via rápida. Depois do ensino médio, iniciou um curso técnico em informática. “Era muito ansioso. Nem terminei o técnico e comecei um tecnológico, na Fiap.”

Jefferson, que já cuidou até do suporte técnico de impressoras, hoje é analista de sistemas sênior da empresa CPM Braxis. Está no último semestre na Fiap e quer fazer pós-graduação para se tornar consultor. Nem cogita a hipótese de complementar a formação com um bacharelado. “Esses cursos não focam o mercado, enquanto a formação tecnológica e um MBA têm conteúdos que posso pôr em prática no dia a dia.”

A pressa de entrar no mercado e ganhar de cara um bom salário não é prioridade para Thiago Miranda Ferreira, de 26 anos, que está prestes a se formar em Ciência da Computação na USP. “Tenho bastante teoria e matemática, é uma formação abrangente”, diz o estudante, que é estagiário da Calum, empresa de soluções tecnológicas e cursos de TI.

Cobol. Thiago teve a certeza de que a opção pelo curso na USP foi correta num estágio anterior ao atual, no Unibanco. Lá ele teve de trabalhar com Cobol, linguagem de programação antiga. Embora não seja mais ensinada nas universidades, é muito usada no mercado financeiro, pela capacidade de processar grandes volumes de dados com segurança e velocidade. “Os analistas seniores são chamados de “donos” dessa linguagem, mas entendi rapidamente seu funcionamento”, diz. “Quando você conhece programação, tudo fica mais fácil.”

O consultor em TI Renato Oliveira Moraes, da Fundação Vanzolini, concorda com a importância dada por Thiago à base conceitual. “Se você é capaz de escrever bem em português, aprende uma nova língua com mais facilidade”, compara. “Quem faz a decisão de ser tecnólogo escolhe entrar mais rápido no mercado. Vai ser recompensado, mas pode acabar pagando um preço por isso.”

Para os cargos mais altos, a formação universitária é considerada imprescindível, garante Maria de Fátima Albuquerque, diretora de RH da Totvs, multinacional que desenvolve softwares e presta serviços de TI. “O candidato pode até fazer um curso tecnológico reconhecido e ter uma atitude muito boa no trabalho”, diz. “Mas precisa fazer um bacharelado para ter mais oportunidades.”

“Há vagas tanto para os tecnólogos quanto para os bacharéis. Só não podemos perder o bonde da história, como em outras vezes”, diz o coordenador dos cursos de graduação tecnológica da Fiap, Celso Poderoso, preocupado com a dificuldade de atender à demanda. O número de formados em 90 cursos relacionados à TI cresceu 9,7% entre 2005 e 2008. Nesse período, o total de profissionais contratados aumentou 21%.

“Estamos em um ponto crítico, porque a formação leva alguns anos. Já existe o temor de chegarmos ao extremo de importar mão de obra”, afirma Anselmo Gentile, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes). “Há cursos de TI sendo oferecidos, mas não sentimos aumento no número de formados.”

Na corrida para formar tecnólogos, as Faculdades de Tecnologia (Fatec) do Centro Paula Souza concentraram nos cursos de TI metade das 10.030 vagas oferecidas pela instituição. “O ensino tem foco bem específico no mercado, mas isso não tem sido desvantagem”, diz a assessora para projetos pedagógicos Vera Lúcia Camargo. Segundo ela, 98% dos formados pelas Fatec consegue emprego.

No Senac, também voltado para suprir as necessidades da indústria, dos cinco cursos de TI oferecidos, três são tecnológicos – com duração de dois anos e meio. “Os tecnólogos estão sendo cada vez mais valorizados nas empresas”, afirma o coordenador da área, Ozeas Vieira Santana Filho. A preocupação do Senac é oferecer um portfólio diversificado para atender às demandas específicas do mercado. Por isso, Vieira já planeja oferecer outros dois cursos em 2011: Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Tecnologia para a Internet.

As universidades também estão fazendo adaptações para estimular a formação em TI. A partir do próximo vestibular, o bacharelado de Ciência da Computação da USP passa a ser uma carreira isolada no vestibular da Fuvest – até o ano passado, a graduação era oferecida com as carreiras de Engenharia.

O coordenador do bacharelado, Marco Dimas Gubitoso, aposta na mudança para aumentar o número de interessados no curso. “As pessoas acabam não sabendo muito a diferença entre as áreas, e isso estava se refletindo na procura, em termos de quantidade e perfil dos candidatos.” Assim como na formação em Engenharia da Computação, a carga de matemática do curso é pesada, o que assusta jovens com interesse mais superficial em computadores.

“A juventude deveria se interessar mais por essa área, que está pagando salários muito bons”, afirma Arnaldo Vallim Filho, diretor da Faculdade de Computação e Informática do Mackenzie. Pesquisa feita pela universidade com a última turma de 250 formandos em Ciência da Computação e Sistemas de Informação mostra que a maioria (42,6%) está ganhando entre 5 e 10 salários mínimos.

Educação básica. Gigantes que produzem muitas das plataformas, softwares e serviços usados no mercado, IBM e Microsoft têm trabalhado em conjunto com o ensino médio e o superior. As parcerias vão da criação de laboratórios em instituições de ensino a cursos que dão certificações – atestados de que o profissional sabe trabalhar com uma plataforma ou serviço específico, que valem tanto quanto um diploma.

“A gente procura trabalhar todos os níveis de capacitação. Fazemos isso não só para atender às nossas necessidades, mas também para formar uma comunidade de pessoal capacitado em TI”, afirma Andrea Rodacki, gerente de Parcerias com as Universidades da IBM, que tem acordos com cerca de 400 instituições.

“Não adianta começar com o aluno da universidade. Tem de ser desde a educação básica”, diz o diretor de Educação da Microsoft, Emílio Munaro.

Outro motivo pelo qual a formação em TI não basta para atender às demandas das empresas é a peculiaridade desse mercado, no qual uma companhia brasileira pode disputar um contrato com rivais indianas e americanas, por exemplo. “Se o País quer exportar serviços em TI, o brasileiro precisa falar pelo menos inglês”, resume o fundador da Stefanini IT Solutions, Marco Stefanini.

fonte:www.estadao.com.br

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